Semana Santa - Páscoa Segundo Mateus

A noite estava estranhamente escura, parecia que a escuridão tinha adquirido densidade. Parecia pesada, gemente, como uma mulher prestes a dar à luz.

Próximo aos túmulos cavados aqui e ali nas pedras, muitos olhos – alguns embaçados pela doença, outros tontos pela fome, outros apodrecidos pela miséria, outros arregalados pelo medo – espiavam.

À espreita, escondidos entre as pedras e as plantas, protegidos pela noite, muitos olhos espiavam os acontecimentos. Ninguém nunca se dava conta de que eles estavam ali; ninguém nunca perguntaria o que eles tinham presenciado e, se viessem, não lhes dariam crédito.

Por isso eles, – os miseráveis de todas as espécies e por todas as causas – podiam olhar a vontade – espectadores privilegiados daquela noite única.

No dia anterior, mesmo os cegos tinham visto o céu tornar-se negro e rasgar-se com fúria, como um grito de homem transpassado pela espada.

Depois, mesmo os surdos ouviram os soluços e os gemidos do mundo, misturados ao choro das mulheres. A terra se queimara com as lágrimas de uma mãe, como se ela fosse, – naquele dia – a mãe de todos.

Escondidos, eles, – os rejeitados – viram chegar, às escondidas um grupo que trazia, às pressas, um cadáver. E foi preciso um grande esforço para rolar a pedra que fechou o túmulo em que ele foi colocado.

Havia mais do que dor naquele sepultamento, mas não podiam explicar. Como também não podiam explicar por que soldados guardavam atentos aquele túmulo.

E até mesmo os doentes se deslocaram para espiar a cena, porque todos sentiam que algo estava para acontecer.

Depois, só o silêncio e a noite densa. Mas eles, – os desesperados – não podiam dormir; tampouco os soldados: davam voltas, jogavam dados, contavam a história de um rei que fora crucificado entre ladrões.

E mais silêncio. E depois, o medo e o susto, quando viram os soldados fugir apavorados, sem rumo. Ontem o céu se abria, hoje, a terra parecia fender-se. A pedra rolada deixara o túmulo aberto.

A aurora chegava lenta; uma nuvem rosa rasgava o horizonte adormecido. Estava escura, mas eles puderam ver a mulher que vinha apressada, trazendo pote. E como ela ficou desesperada ao ver o túmulo aberto e como chorava, procurando o corpo e como se transfigurou ao conversar com alguém.

Sim até os abrigados se levantaram e até os cegos vieram para testemunhar que ali havia alguém. Não sabiam quem era, mas uma coisa era certa: não era um morto, não era um fantasma. Quem quer que fosse estava vivo e parece que falava com autoridade de mestre, porque a mulher saiu às pressas, como que para cumprir uma ordem importante. Não mais chorava não mais se desesperava, mas abandonara o pote inútil.

Alguns mais curiosos ousaram ir até o túmulo para espiar e viram que estava mesmo vazio.
Um deles, um desses mendigos errantes, disse que tinha certeza de que vira aquele homem antes. E estava tirando um morto do túmulo, um tal de Lázaro.

E como um mendigo errante precisa sempre partir, ele foi embora como chegou, gritando para quem quisesse ouvir, nas aldeias, nos caminhos e nas cidades: que – em Jerusalém – um homem havia ressuscitado: saíra do túmulo e estava vivo, bem vivo.

E os aleijados, e os cegos, os miseráveis de todos os tipos e por todas as causas, sabiam que ele não estava falando bobeira, ainda que parecesse louco de alegria.

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