V Domingo do Tempo Comum

«Vós sois o sal da terra. Mas se acaso o sal vier a perder o sabor, com que poderá recuperá-lo? Não serve mais para nada. É jogado fora e pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Uma cidade situada no alto de um monte não pode ficar escondida. Nem se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de uma vasilha, mas no seu próprio lugar, de onde brilha para todos os que estão na casa. Assim brilhe vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.» (Mt. 5,13-16)

Como bons cristãos, hoje nós também nos colocamos diante de Jesus dispostos a ouvir e deixar penetrar em nós a força delicada e transformadora das palavras que o Senhor dirigia àqueles que tinha mais de perto, os seus discípulos. O modo com o qual Jesus fez espalhar o conteúdo do Reino tem uma característica específica e bem evidente. Ele, ao contrário do método que usavam todos os pregadores de novas doutrinas, não escolheu falar a todos do mesmo modo. A sua mensagem não era indiferenciada, espalhada ao vento para que quem quisesse pudesse recolher. Jesus gerou em torno de si, diríamos, três níveis de pessoas, três grupos aos quais se dirigia de modo diferente e com conteúdos diferentes: a “multidão”, os “discípulos”, os “apóstolos” (às vezes essa última distinção é bem flexível). De fato Jesus tem sempre uma maneira diferenciada de se comunicar com os discípulos e a multidão. Essa, na maioria dos casos, é composta por gente que segue Jesus por curiosidade ou por necessidades imediatas particulares; Jesus atende os seus pedidos, mas raramente se detêm para explicar o conteúdo da sua pregação e o sentido dos seus gestos. À multidão Jesus dá o que eles querem.

Bem diferente é o comportamento do Senhor com o grupo daqueles que os Evangelhos chamam de “discípulos” o que significa: “os que estão dispostos a aprender”. Relações diferentes, logo, porque o grau de envolvimento com Jesus é diferente, logo, quanto mais perto de Jesus alguém fica, tanto mais pode entender de fato o que Ele diz e o que Ele é. Ora, isso não é possível, por exemplo, à multidão, porque tem com Jesus um relacionamento esporádico, saltuário, ligado a necessidades imediatas, às vezes movido por curiosidade. Sim, esse também é um modo de se aproximar de Jesus, um modo que Ele aceitou e que nós também precisamos levar em consideração quando “julgamos” o modo com o qual muitos se achegam a Jesus. Por outro lado é verdade também que o Senhor tem um interesse específico para com os discípulos, um interesse educativo. Como então ainda hoje, o Senhor deseja que o conteúdo de tudo o que Ele é e diz, possa penetrar em suas vidas par que se torne ponto de referência, «cidade fundada sobre uma montanha», que resplandece tanto mais quanto mais escura é a noite para os viandantes a caminho.

O texto que acabamos de ler é recolhido pelo Evangelista Mateus, como num único grande discurso (cap. 5 e 6) que forma como um “vade-mécum” do discípulo.

Os Evangelhos chamam «discípulos» “aqueles que estão dispostos a aprender”. Temos assim relações diferentes, logo, porque o grau de envolvimento com Jesus é diferente. Uma coisa é quando buscamos Jesus para resolver algum problema imediato que nos aflige e que sentimos superior às nossas forças, como em ocasião de uma grande tristeza ou dificuldade imediata que sobrevenha; esta já é uma ótima atitude, uma atitude típica de quem aprendeu a recorrer a Deus e renunciou à presunçosa atitude típica de quem não pede ajuda. Por outro lado, outra coisa é quando buscamos um amadurecimento e estreitamento das relações com Deus. É isso que caracteriza um discípulo. Essa atitude é o indício de que a nossa relação com Ele é madura e se manifesta com um pequeno sinal, isto é, quando decidimos de “aprender” um estilo de vida nova que possa trazer autenticas mudanças em nossa vida e no ambiente que nos cerca. Ser discípulo é, acima de tudo, um ato que mostra a maturidade do nosso relacionamento com Jesus. Quando se verifica isso, se entende também por que Jesus se dirige com maior atenção e cuidado a eles. Sim, porque o discipulado é uma atitude de fidelidade no amor, que expressa a humildade de quem está disposto a se deixar moldar pela ação delicada e paciente de Jesus e do Espírito; o mesmo que «conduzia» sempre o próprio Senhor. Assim como Ele aprendia dia após dia (é isto que caracteriza a declaração do Batismo de Jesus e da Transfiguração) a reconhecer e seguir a vontade do Pai através do movimento do Espírito, assim também o discípulo escolhe este mesmo etilo de vida: deixar-se conduzir, para o bem das pessoas. O discipulado é um caminho que retrata a comunhão de vida e de ação trinitária e a faz presente no meio dos homens. Por isso, ser discípulo, é mais do que apenas ser “sequazes” de uma ideologia ou de um mito.

            Jesus usa duas imagens com as quais tenta explicar aos discípulos qual é o efeito gerado quando alguém decide segui-lo estavelmente; são as imagens do sal e da luz. Cada uma com significados próprios diferentes.

           

            Muitas vezes, nas enfáticas admoestações religiosas, se ouve dize: “precisamos ser luz…. precisamos ser sal….”. Embora seja digno de encômio esse modo de exortar os fiéis, todavia a fica bem claro, ouvindo as palavras do Senhor, que Ele não está dizendo “o que alguém deve fazer” para ser discípulo, mas sim o contrário. Ninguém “deve ser luz”, ninguém “deve” ser sal. Jesus está superando o plano ético-moral que “impõe” comportamentos “como sal, como luz”. Ele simplesmente “declara” o que acontece quando alguém se decide por um caminho de discipulado. A sua vida muda, na sua essência, não apenas no seu comportamento. O comportamento do discípulo autentico fala sozinho e dá «glória ao Pai»; independentemente da consciência que ele tenha. Uma luz ilumina por si própria, não porque “quer” iluminar. É isso que acontece com a vida de quem decidiu colocar o Senhor no centro da sua existência. Cada seu ato, cada sua decisão, cada encontro e palavra falam de Deus por si próprios, analogamente ao próprio Senhor cujos gestos falavam e mostravam o Pai.

            Os símbolos usados por Jesus eram muito fortes na época, e facilmente compreensíveis, o que, por exemplo fica bem mais difícil para nós, acostumados, por exemplo, a estradas iluminadas, a ter sempre o sal em casa…. Tentaremos decifrar, por quanto possível, o que Jesus queria indicar usando a imagem do sal.

Acostumados na sociedade da abundância onde o “ter” é o obvio, é difícil para nós sentir o que significava na antiguidade ter sal ou não. Obter um quilo de sal demorava dias e dias de evaporação de água marinha, o sal mineral era pouco conhecido e, frequentemente “venenoso”. Assim sendo, o sal era considerado algo precioso, objeto e elemento de permuta; em alguns casos (no Egito e entre os Sumérios) era usado como verdadeira moeda. O pagamento de um trabalho ou serviço efetuado era remunerado normalmente com dinheiro, todavia, no caso se quisesse retribuir com uma gratificação adicional, um “a mais” do que o justo, era dada uma porção de sal (fato pelo qual usamos ainda hoje a palavra “salário”, que era uma porção de sal dada aos soldados romanos que se sobressaiam, que “davam” mais do que lhes era pedido). Ter sal em casa significava ser privilegiado, era sinal de abundância e, na crença popular, era tido como um auspício benéfico por parte das divindades. O uso era dosado e não era quotidiano, reservado apenas para momentos especiais.

Tendo estes elementos como pressupostos, creio que possamos aproximar-nos melhor dos sentimentos de Jesus. Utilizando esses conteúdos simbólicos, Jesus diz que o discípulo, é o “dom a mais” que Ele dá aos homens para que se encontrem com Deus. O o discípulo é uma nova palavra que o Altíssimo dirige ao mundo, além da palavra que Deus sempre diz através da sua criação, da história dos profetas…. Deus deu ao homem um mundo inteiro, coisas maravilhosas para que ele possa se realizar plenamente, para ser feliz assim como Ele sempre desejou. O jardim do mundo, as relações autênticas, a condição de criar e cultivar esta riqueza, a amizade de Deus demonstrada e ratificada pela sua palavra, são uma série de ofertas gratuitas. Além de tudo isto, que por si próprio já é o suficiente para que todos os homens, de todas as culturas, possam descobrir o caminho que leva a Ele (caminho que a antropologia chama “religiosidade”); além disso, além do “soldo”, Deus dá ao mundo o seu “sal”, os discípulos de Seu Filho. É um ulterior ato de carinho. Eles são os que amam a Jesus de fato, que estão respeitosamente dispostos a ouvir; pessoas que antepõem a lógica dEle à própria maneira de ver as coisas. Neles há um amor autêntico que se transforma em força e entusiasmo para a vida. Um “brilho novo” ilumina seus olhares porque veem aquilo que nem para todos é fácil ver.

É isso que, ainda hoje, um discípulo é para o mundo! Qual grande honra e privilégio sentir-se “um dom de Deus para o mundo”.

O discípulo é um encontro vivo, um sinal da magnanimidade de Deus que sempre oferece condições para que qualquer pessoa possa perceber que Ele ainda encanta, fascina, atrai….

Ser discípulo é resultado de uma dúplice tensão de amor que deseja se encontrar: o Senhor que atrai o fiel que se deixa atrair não deixando cair no vazio aquilo que o coração pede. O discipulado é uma condição de vida que nasce quando é Jesus que escolhe e a pessoa que se deixa escolher, sem questionar, sem se avaliar, sem julgar sobre o que foi a vontade de Deus para ele. Alguém que estiver assim disposto, tornar-se-á “coisa preciosa”, para todos, como o sal, capaz de dar um sabor novo à existência de outros. O sal é elemento primo, que não pode ser “salgado” mas tem o poder de modificar, de dar sabor novo à vida, às pessoas que não encontram sabor naquilo que fazem repetidamente, todos os dias, com o medo de se perguntar: “por quê”? Encontrar o “sal” na própria vida permite vivê-la de modo diferente. Não se trata tanto de uma modifica daquilo que fazemos, mas da maneira de fazer as mesmas coisas que sempre fazemos. Assim sendo, onde havia uma vida insossa, o encontro com um “discípulo” pode trazer de novo o “gosto” da vida; pode evitar o drama da busca insaciável de sensações novas, de estímulos excêntricos que apenas servem para cobrir uma recôndita insatisfação que as pessoas carregam dentro de si.

Qual grande honra saber que qualquer pessoa esteja disposta a escutar, a envolver-se, é considerada por Deus como “o seu dom precioso” que Ele pode ainda oferecer ao homem, o qual está sofrendo porque não encontra sentido naquilo que a vida o levou a viver! E, além disto, além de saber que somos algo precioso para Deus, quão grande é também a alegria de poder restituir o sorriso aos lábios de alguém que não sorria há muito tempo! Isso não tem preço.

Jesus parece fazer um sutil convite a participar do esforço de Deus em mostrar ao mundo que o amor é maior do que o egoísmo, que a esperança é viva, que o homem é maior do que suas inseguranças que geram dor. O discípulo não fala disso, apenas carrega dentro de si esta realidade nova, como o sal carrega dentro de si o poder de dar sabor novo às coisas; quem coloca o sal é outro, é o Senhor, que precisa “salgar” a vida insossa, sem sentido e que traz desespero a muitos. É o mesmo convite que hoje nos repete, um convite que sempre encontrará homens e mulheres generosos dispostos a superar os limites de seu horizonte e dizer: “sim, Senhor, faça de mim um Teu discípulo para que a minha vida manifeste o Tua bondade, para que a minha existência seja missionária além das palavras e das coisas que eu possa fazer”.

Contudo, Jesus alerta sobre um perigo: o sal pode perder o seu sabor. O sabor e o poder de dar sabor, nos advêm pela atitude de “ser discípulo”, isto é, não se trata de um privilégio adquirido definitivamente, mas de algo que caminha conosco e…. pode terminar quando paramos de caminhar. Isso implica na capacidade de se deixar transformar pela união com o Senhor feita de oração, caridade, contemplação, superação do próprio “eu”, do modo privado de ver, do culto do próprio mundo…. Ora, tudo isso acontece somente se mantivermos viva a referência à pessoa de Jesus.

Se o “sal” pode enriquecer a vida com um significado diferente, pode também trazer consigo a morte, a morte causada por uma decepção profunda. Simbolicamente, durante uma guerra, quando era destruída uma cidade, se espalhava sal sobre as ruínas como para dizer que por muito tempo a vida seria impossível ou, pelo menos ressurgiria com muita dificuldade, como as plantas numa terra salgada.

È o alerta de Jesus, porque o “discípulo”, uma vez que decide em favor de Jesus e tendo Ele como referência, não pode mais pensar de agir “somente” em seu próprio nome, não pode mais se arrogar o direito de “fazer o que quiser” porque é seu direito. Não! A partir de quando decidimos nos colocar nas pegadas de Jesus, e na intensidade com a qual nos entregamos a Jesus, as pessoas desejam ver Ele em nós, não apenas nós mesmos. Desejam ver a “luz” que Ele acendeu na nossa lâmpada, não apenas a lâmpada, por quanto bonita e valiosa que seja.

A partir do momento em que estabelecemos uma relação profunda com Jesus, quem vê a nós se pergunta sobre Jesus. Quem espera encontrar o sabor que Dele vem, pode até correr o risco de não encontrar nada mais do que o nosso “eu”…. e isto pode causar mais sofrimento e decepção. È uma séria responsabilidade que gera consequências, positivas ou negativas, que o percebamos ou não.

Cultivar e viver na escuta da palavra, na oração calma, na atenção aos homens que Deus tanto ama, com certeza fará aflorar a melhor parte de nós mesmos e mais bonito será o dom que o Pai poderá ainda oferecer à humanidade que sofre.

Pe. Carlo

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