Artigo: Amar a misericórdia em Miquéias

Rio de Janeiro (RV) - A cada ano no Brasil, desde a década de 1970, a Igreja tem a graça de celebrar em setembro o Mês da Bíblia. O mês foi escolhido porque no dia 30 comemoramos o Dia de São Jerônimo. No domingo próximo a esse dia celebramos também o Dia Nacional da Bíblia. Neste mês ressaltamos ainda mais a importância da Sagrada Escritura em nossas vidas. Porém, as Sagradas Escrituras estão presentes em todas as celebrações, reuniões, leituras que fazemos a cada dia. Com a Tradição da Igreja podemos ler a Bíblia e encontrar nela o rosto da Palavra (Verbo) feita carne, Jesus Cristo, nosso Senhor.

A cada ano temos um tema e um lema nesse mês, além de um dos livros da Bíblia para conhecer melhor. O tema deste ano (e dos próximos) é: “Para que n´Ele nossos povos tenham vida”, e o lema (de acordo com o tema do livro bíblico) “Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar com Deus”. O Mês da Bíblia 2016 traz como proposta o estudo do livro do profeta Miquéias, que ilumina o lema anual.

Como é proposta da Igreja, além da Lectio Divina, da acolhida da Palavra de Deus, o livro bíblico escolhido é para ser também estudado e conhecido melhor. Miquéias atuou como profeta durante os governos dos reis Joatão (740-736), Acaz (736-716) e Ezequias (716-687), isto é, entre os anos 740 e 687aC. O texto base do Mês da Bíblia diz que algumas das palavras de Deus para Miquéias se referiam a Samaria, que foi destruída pelos assírios em 722. Nas suas profecias, Miquéias faz alusão a um desastre militar que arrasou grande parte das cidades de Judá (cf. Mq 1,10-16). Trata-se da invasão do exército da Assíria que aconteceu em 701 (cf. Is 5,26-30). Isso significa que a atuação profética de Miquéias começou antes de 722 e foi até depois de 701. Miquéias era contemporâneo dos profetas Oseias e Isaías, que atuaram na mesma época: Oséias na Samaria, Isaías em Jerusalém.

Miquéias era um homem do povo, bem do interior. Criado na roça, sua linguagem é simples e direta. Não usa meio termo e vai direto ao assunto. Ele vive muito identificado com o povo rural, que era explorado e oprimido pelos grandes (Mq 2,1-2). Miquéias é um lavrador que observava como as terras dos pobres eram tomadas e invadidas (Mq 2,2). Ele denuncia a terrível dominação que os grandes impunham ao povo trabalhador (Mq 3,3; 3,9-11). Faz denúncias muito fortes contra Judá e contra Samaria e indica as causas: exploração, propinas, corrupção, vontade de ganhar dinheiro sem preocupação com os pobres.

Miquéias era um homem da esperança. Ele lembra como era a vida do povo no passado, bem no começo, “nos dias da saída da terra do Egito” (Mq 7,15). Ele espera o mesmo para o futuro: terra ampla, desde Galaad até Basan, desde o Mar Morto até o Mar Mediterrâneo, desde a montanha do Hermon até o Monte Horeb, a montanha de Deus (cf. Mq 7,11-12.14). Assim, ele transforma a saudade em esperança. Compara este passado tão bonito com a situação presente, em que ele e os pequenos eram obrigados a viver. E se pergunta: Por que as coisas são assim? Não deveriam ser assim! Então, como deveriam ser? É aqui que entra o significado do nome. Ele se chama Miquéias, Mi-ca-ya, “quem é como Yhwh!”? Desde pequeno, ele deve ter se perguntado muitas vezes: Por que me deram esse nome? O que significa este nome para mim, para minha missão? Todas essas coisas fo¬ram provocando as profecias de Miquéias, conservadas nos sete capítulos do livro que traz o seu nome.

Miquéias era um homem de fé! Para ele, tudo vem de Deus (Mq 7,18-20). Sua fé transparece nos sete capítulos do seu livro. Uma fé simples e pura. Miquéias usa imagens bonitas para expressar a esperança que o anima. Em suas visões, ele vê Deus como um pastor que vai condu¬zir o seu povo (Mq 2,12; 4,6-7), e o povo será como um rebanho tranquilo (Mq 7,14-15). Sião vai ser um sinal no mundo inteiro (Mq 4,1), vai ser “a montanha de Deus” (Mq 4,1-2). De Sião, a lei de Deus vai se irradiar entre os povos (Mq 4,2b). As espadas irão se transformar em arados, e haverá paz (Mq 4,3), cada qual na sua terra, tranquilo e feliz (Mq 4,4). Vai ser como o orvalho para a terra seca (Mq 5,6). Deus, ele mesmo, vai ser a luz (Mq 7,8). A terra do povo será alargada com as fronteiras do tempo do êxodo (Mq 7,12), e a terra dos inimigos ficará vazia (Mq 7,13). Todas as nações o verão (Mq 7,16-17).

O livro de Miquéias tem sete capítulos, divididos em duas partes: capítulos 1 a 5 e capítulos 6 e 7. Em cada uma dessas duas partes existem denúncias de condenação e anúncios de esperança. Na primeira parte: os capítulos 1 a 3 são denúncias, e os capítulos 4 e 5 trazem anúncios de es¬perança. Na segunda parte: o capítulo 6 traz denúncias e o capítulo 7 traz anúncios de esperança.

Três textos de Miquéias, com valores muito diversos, tiveram especial importância para os autores neotestamentários. O mais conhecido é 5,1 (“E tu, Belém...”), citado em Mt 2, 6; Jo 7,42. Também 7,20, que fala da fidelidade de Deus aos antepassados do povo de Israel, é retomado no Magnificat (Lc 1,55) e em Rm 15,8. Enfim, 7,6, que apresenta as desavenças familiares como o maior argumento da falta de lealdade e de fidelidade, é citado ou recordado em Mt 10, 21.35; Mc13,12 e Lc 12,53 para descrever as trágicas consequências da atividade de Jesus.

Que os grupos de reflexão, círculos bíblicos, pequenas comunidades em forma de Lectio Divina, ou leitura orante da Bíblia, junto com os estudos estilo acadêmicos do Profeta Miquéias, aproveitem este mês para conhecer ainda mais o contexto do livro e do profeta, e dar passos para que a Palavra ilumine sempre nossos caminhos.

Que neste mês de setembro, conduzido pela temática e pelo livro do profeta Miquéias, a esperança tome conta dos nossos corações e da nossa vida, particularmente neste momento em que o Brasil precisa de unidade e de concórdia para um recomeço iluminado pela Palavra de Deus. Que este mês possa despertar ainda mais em nós a vontade do estudo e do aprofundamento dos textos bíblicos, pois, como diz a música: “tua Palavra é lâmpada para meus pés e luz para os meus caminhos”.

Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

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